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Trump estragará o (recente) otimismo do setor florestal mineiro?

Março 09, 2018
Author: Marcelo Schmid

Uma notícia abalou o mercado florestal de Minas Gerais no início deste mês: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que serão cobrados impostos de 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio importados de alguns países, dentre eles o Brasil. Trata-se de uma medida de segurança da produção industrial do país norte-americano.

Em 2017 o Brasil produziu 35 milhões de toneladas de aço bruto e, destes, 15 milhões foram exportados – um terço para os EUA. O peso dos EUA é maior entre os produtos semimanufaturados - eles compraram 53% do total exportado pelo Brasil em janeiro deste ano.

O setor siderúrgico mineiro é o principal produtor de ferro gusa no país (matéria-prima do aço) (Figura 1) e possui destaque em nível mundial por usar como matéria-prima de seu processo o carvão de florestas plantadas de eucalipto, logo, a decisão tomada pelo governo norte americano pode afetar diretamente o setor florestal do estado de Minas Gerais.

Figura1. Produção nacional de ferro gusa em 2016

Tariff 1.png

Fonte: Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais (SINDIFER), adaptado

Minas Gerais é o estado com maior área plantada com eucalipto no país, com 1,4 milhão de hectares em 2016, de acordo com o último relatório da IBÁ (Indústria Brasileira de Árvores). Vale destacar que o segmento que mais consome a madeira neste estado é justamente o de produção de carvão para siderurgia, Conforme destacado em artigo publicado em 2017 pela Forest2Market do Brasil.

O setor de gusa mineiro sofreu um enorme impacto quando a crise econômica internacional ocorreu em 2009 (Figura 2). Naquela época os EUA era o maior país consumidor de gusa do estado e, como resultado, muitas siderúrgicas fecharam suas portas.

Figura 2. Evolução histórica das exportações de ferro gusa de MG (em milhões de ton)

Tariff 2.png

Fonte: Secretaria de Comércio Exterior (SECEX), adaptado

Após a crise de 2009 o setor siderúrgico mineiro voltou sua atenção ao mercado interno e, mais recentemente, diante da crise econômica de nosso país, diversificou o destino de suas exportações (Figura 3).

Figura 3. Participação do mercado externo e interno do ferro gusa de MG

Tariff 3.png

Fonte: SINDIFER e SECEX, adaptado

 

Mas até onde o mercado florestal mineiro seria afetado por essa decisão dos EUA?

Em 2017, a Forest2Market do Brasil desenvolveu um estudo sobre o mercado florestal de Minas Gerais e na época observou sinais claros de recuperação da demanda por carvão na região em função da recuperação da economia interna do país. O estudo apontou inclusive a possibilidade de um “apagão” (falta de madeira) no mercado mineiro nos próximos anos, em face da redução da produtividade média do estado causada por fatores diversos.

A projeção de aumento no volume consumido de toras de eucalipto no estado prevista pela Forest2Market do Brasil está se confirmando mais rápido que o previsto, com a reativação de diversas unidades de empresas siderúrgicas, outrora paralisadas devido à crise. Além da demanda por carvão, o estudo apontou o aumento gradual nos preços pagos pelo carvão vegetal, tendência essa confirmada em transações de mercado recentes (fevereiro/2018) monitoradas pela Forest2Market do Brasil, conforme apresenta a figura 4.

Figura 4. Evolução histórica do preço do carvão vegetal em MG

Tariff 4.png Fonte: Forest2Market do Brasil

Antes que o otimismo que voltou a circular em meio aos talhões de eucalipto e planilhas financeiras das empresas florestais mineiras vá embora, é preciso analisar alguns aspectos:

  1. A medida foi confirmada recentemente (08/03/2018), porém há um prazo de 15 dias para entrar em vigor. Até lá, os países podem negociar possíveis isenções com o negociador comercial dos EUA, Robert Lighthizer;
  2. Essa negociação com os países é bastante provável, pois muitos já se manifestaram veementemente contra tal sobretaxa. A União Europeia anunciou a possibilidade de criar “medidas de retaliação” a produtos americanos e a própria Organização Mundial do Comércio (OMC) mostrou-se descontente com a possível medida dos EUA;
  • A própria indústria do aço norte-americana não é inteiramente simpatizante da medida, uma vez boa parte do aço importado pelos EUA é semi-acabado, ou seja, é insumo de produção para siderúrgicas americanas e a taxação impactaria nas próprias empresas do país;
  1. Além disso, a imposição da taxa impactará no plano de revitalização das estruturas norte-americanas, ambicioso projeto de Donald Trump, que prevê investimentos de 200 bilhões de dólares na recuperação de estradas, portos aeroportos e ferrovias americanas. Esse plano está atualmente sendo discutido pelo Congresso.

Além da (alta) possibilidade de insucesso da taxação do aço importado, é necessário lembrar que, embora a exportação de aço tenha aumentado nos últimos três anos, a recuperação evidenciada pela Forest2Market do Brasil no consumo de carvão é decorrente da recuperação da economia interna, que leva à recuperação de segmentos industriais que tem o aço como matéria-prima, como por exemplo, a indústria automobilística.

Qualquer reação agora em Minas Gerais seria prematura. A demanda por carvão no estado continua crescente e o otimismo dos produtores idem. Basta desligar a televisão e continuar trabalhando.

 

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